“É Lula no cume do rico” – pichação em muro de Niterói
O contexto internacional em que se insere o Brasil é de expansão do sistema capitalista, puxada especialmente pelas altas taxas de crescimento da China e da Índia, mas também de outros países ditos emergentes. Esta expansão, porém, não se dá sob o pensamento único que dominou o cenário dos anos 1990. Ainda que não se deva supor nada de superior, deve-se observar como sinais de fragilidade da dominação imperialista a extraordinária resistência iraquiana, as revoltas dos estudantes franceses e chilenos em face das ameaças no plano educacional que recaem sobre eles, os resultados eleitorais da Itália e a recomposição dos socialistas franceses no cenário das eleições daquele país.
Não configurando mudanças significativas, mas apenas uma sinalização de tensão e insatisfação popular, estes fatos se somam ao panorama latino-americano, inclinado para o populismo de esquerda, e até mesmo da América Central, onde o México dá sinais de potencialidades, seja pelo inconformismo de Lopez Obrador, seja pela rebeldia dos Zapatista, da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca e de outros grupos radicais.
No Brasil, as eleições de 2006 são o acontecimento de maior relevo da atual conjuntura, ainda que seu fechamento se tenha dado em 1º de novembro passado. A análise da conjuntura, que a grosso modo significa a análise do quadro de luta de classes - em outras palavras como estamos nós e como eles se encontram na disputa de poder e hegemonia - tem obrigatoriamente de partir deste ponto.
O acontecimento não se refere propriamente à eleição de Lula, cuja probabilidade sempre foi acentuadamente maior do que o contrário. Apesar de todas as peripécias e alopramentos do PT e do próprio governo, Lula já começa a campanha com larga vantagem.
Quando, em março, se anuncia o candidato do PSDB, apresentado, nas destacadas capas da revista Veja - o Anti-Lula - e da revista Época - Presidente Alckmin – os números apontam uma formidável distância entre os dois candidatos. A pesquisa IBOPE/CNI informa: Lula tem 43% e Alckmin 19%. Um hipotético segundo turno é investigado, quando se testa para onde iriam os votos de Heloisa Helena e do então ainda possível candidato Antony Garotinho. O resultado é sobejamente Lula: 49% contra 31%, dos votos válidos (Revista Época, 20 de março de 2006, pp. 34/35).
Esta distância foi se acentuando, à medida que iam se confirmando as previsões de que o padrão de debate, centrado na ética, iria gradativamente esvaziando o poder de fogo do PSDB, no contexto de naturalização da corrupção política, quando se ouvia o frugal comentário de que na política todos roubam. Montenegro, conhecido marqueteiro político e principal sócio do IBOPE, dizia, na Carta Capital de 5 de abril, que, nas expressões da revista, “dentro de uma semana já quase ninguém se lembrará da história da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo”. Referia-se a mais uma das grosserias do PT, que para salvar Palocci havia, com a ajuda do presidente da Caixa Econômica Federal, invadido o sigilo bancário do caseiro que denunciara o ministro.
Crescentemente, Lula foi aumentando a distância e por meses manteve a probabilidade de ganhar no primeiro turno.
O primeiro movimento revelador da conjuntura foi, entretanto, o surpreendente resultado. Quando se supunha que a eleição estava encerrada, há poucos dias da votação de outubro, o grupo paulista do PT, digamos a escola de Delúbio, com seus novos alunos, mas tão trapalhões quanto o mestre, meteu novamente os pés pelas mãos com um dossiê cujo dinheiro e explicações até hoje constituem um pântano – sujo e movediço. Para culminar, o candidato, que já se havia dado mal em uma entrevista sobre o referido dossiê, foge ao debate promovido pela TV Globo e é objeto de críticas contundentes de todos que lá compareceram.
A campanha eleitoral que se centrou no mote da ética x corrupção, esvaziada de qualquer outro conteúdo político que não a disputa de quem era o menos desonesto, chega ao seu momento crucial com estes dois fatos de enorme grosseria: Lula envolvido em mais uma corrupção do seu partido e se ausentando do último debate na maior rede de TV brasileira.
Aberta as urnas, Lula tinha 48,6% dos votos e Alckmin 41,6%. Estava, reduzida a diferença de 24%, em março/abril, para 7% no dia 1º d eoutubro. O anti-Lula cresceu na reta final ou foi Lula que caiu? Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, 5 meses antes, quando prenunciava o esvaziamento das crises éticas pré-eleitorais do PT e do governo Lula, fazia entretanto quase uma predição: “A temporada pré-eleitoral diminui o impacto das denúncias. Só uma acusação mais grave, que atinja diretamente o presidente pode mudar a situação” (Carta Capital, 5 de abril, de 2006, p. 25).
Revelando um grau elevado de senso de situação, o eleitorado fez o que o candidato Cristóvão Buarque aconselhava do alto do seu saber judicioso: “Não se deve eleger alguém no primeiro turno quando se tem dúvida sobre se ele está ou não inocente de uma denúncia tão grave. O segundo turno é necessário para dar tempo à apuração dos fatos. Se Lula já estiver eleito no primeiro turno, não há como o eleitor consertar o seu erro”.
Para confirmar os motivos do gesto, o Instituto Vox Populi pergunta, em pesquisa divulgada após o primeiro turno, na revista Carta Capital de 18 de outubro(p.29): “qual foi o principal motivo para que o presidente Lula não vencesse as eleições no primeiro turno ?” . Duas respostas somam 77% dos entrevistados: “Ele não ir ao debate na TV Globo” – 41% - e “as revelações contra pessoas do PT tentando comprar dossiê” – 36%.
Baixa o pano.
O segundo turno - uma nova campanha acontece
Portanto, o processo eleitoral do primeiro turno foi centrado exclusivamente na questão da ética, da moralidade dos governantes e dos políticos. A sociedade se dividiu. Uma parte, aquela dos segmentos mais pobres, parecia dizer que, a exemplo de Ademar de Barros, folclórico populista da São Paulo dos anos 1950/60, Lula rouba, mas faz. Um certo cinismo se revelou no voto dado a figuras semelhantes, como Paulo Maluf, na mesma São Paulo de Ademar, ou Collor de Mello, em Alagoas. Alguns mensaleiros foram reeleitos. Vale lembrar que as eleições proporcionais são mais sujeitas ao voto de clientela e a influências paroquiais.Mas, de outro lado, uma segunda parte da sociedade reprovava o Lula dos mesmos mensaleiros e principalmente o Lula do dossiê, o Lula fujão do debate, e quase todos os sanguessugas - a versão mais recente do político desonesto – que não se reelegeram. Em Pernambuco, o ex-ministro Humberto Costa pagou o preço das suas relações com sanguessugas, passando de favorito a 3º lugar nas eleições para governador.
Fenômeno semelhante se verificou no Rio de Janeiro, quando o candidato de Lula a governador, Marcelo Crivella, perdeu a disputa para Denise Frossard, que foi para o segundo turno com Sérgio Cabral. A candidata reproduziu o udenismo de forte tradição no Rio de Janeiro, onde Carlos Lacerda, Amaral Netto e Sandra Cavalcanti marcaram época defendendo a moralidade e gastos com a segurança pública, no estilo mais bancada da bala possível. Amaral Netto foi durante anos o grande defensor da pena de morte, projeto que lhe deu vários mandatos de deputado federal.
O debate da moralidade e da segurança, mais uma vez o debate que põe para baixo do tapete as questões mais vitais da sociedade e da luta de classes, predominou no primeiro turno. Para todos. Com exceção de Cristóvão Buarque, cujo mantra da educação o diferençava, mas não fez diferença. Os brasileiros que sempre amaram citar a educação como panacéia de todos os males deram menos de 3% ao paladino da educação.
Os 7% que separavam Alckmin de Lula poderiam diminuir se o padrão da campanha continuasse o mesmo. Sem falar da possibilidade de outro dossiê ou outra cueca cambial lhe cair na cabeça às vésperas da nova votação.
Entra em cena não o Lulinha paz e amor, mas um Lula revitalizado, que inspirou suspiros de saudade em alguns velhos ex-petistas com inclinação para Velhinha de Taubaté.
Lula denunciou as privatizações, declarando que não faria com a Vale do Rio Doce e a EMBRATEL o que fez o governo do PSDB, anunciou que não teria nova reforma da previdência, defendeu a política de boa vizinhança e apoio ao governo de Morales, criticou o seu amigo Bush pela política externa belicosa e resgatou o discurso dos pobres versus os ricos que fazia o delírio dos seus comícios mais antigos. A pichação em muro de Niterói, “É Lula no cume do rico” , visivelmente uma iniciativa expontânea de massa, dá bem a idéia do alcance desta manipulação.
Alckmin, com seus traços fisicamente identificados com a Avenida Paulista, seu jeito de burguês indisfarçável, por mais que vestisse o macacão da Petrobrás e o boné do Banco Brasil não poderia enfrentar o Lula no terreno de quem é mais fiel à política do capitalismo monopolista de Estado, mais identificado com o Estado de bem-estar social, enfim, mais próximo do modelo que o neoliberalismo vem desmontando, inclusive com a ajuda do próprio Lula.
Ao contrário de denunciar o adversário de estar fazendo um pastiche, plantando uma mentira, dado que Lula também professa e pratica na mesma cartilha privatista, Alckmin se apresentou também como um pastiche, no caso, pior que isto: um canastrão. O povo, mesmo já acostumado às novelas da Globo, não foi enganado por um ator tão bisonho. A massa achou melhor não trocar o certo pelo duvidoso, como dizia um dos slogans mais explorados pela campanha do Lula, no segundo turno.
Lula mentia, mas agora mentia convincentemente. Alckmin mentia e sua mentira saltava aos olhos. O único a falar a verdade foi o eleitor: ele não queria a direita com suas privatizações que não melhoram sua condição de vida, mas ao contrário pela via do desemprego maciço a piorou. Não queria mais reforma da previdência. Não rejeitava a presença do Estado, ao contrário, o desejava.
Esquecendo o conselho de Cristóvão, até porque sobre o dossiê nada parecia se tornar claro, o povo trabalhador agora tinha outros motivos para fazer seu julgamento, que não era mais escolher entre dois ladrões.
O candidato do PSDB, imagem e semelhança do que há de mais burguês no Brasil, perdeu mais de 2,5 milhões de votos, saindo da votação com um volume menor de votos do que entrara. Segundo o já citado Marcos Coimbra, em 102 votações majoritárias ocorridas no Brasil, desde 1989, entre prefeitos, governadores e presidentes, apenas um caso de diminuição de votos ocorreu. Agora temos 2. Vale lembrar que imediatamente após o resultado do primeiro turno, uma pesquisa divulgada pelo jornal Valor, coordenada pelo conhecido Antonio Lavareda, apontava 52% para Lula e 48% para Alckmin. Ou seja, considerada a margem de segurança, um empate técnico.
O reposicionamento tático da campanha, assumindo um debate matizado entre a esquerda e suas bandeiras clássicas e a direita e seu perfil conhecido, produziu uma mudança de posição de grande parte do eleitorado. A diferença de 4%, margem de erro, com que os dois candidatos iniciam o segundo turno, acaba se ampliando e termina com a vitória de Lula com mais de 20% de vantagem sobre Alckmin. Não foram só os votos de Heloisa e de Cristóvan que migraram para Lula, por hipótese. Estatisticamente, foram também votos do próprio Alckmin que mudaram de endereço.
O Brasil vai para a esquerda
As pesquisas trabalhadas por Alberto Carlos de Almeida, em seu Porque Lula ? (FGV, 2006) já haviam revelado a mudança de avaliação popular. Dados do Estudo Eleitoral Brasileiro, publicados no livro de Almeida informam que o povo brasileiro está insatisfeito com as privatizações, que deseja os serviços públicos sob controle do Estado e quer o Estado na economia até mesmo controlando preços (opinião de 73% dos entrevistados) e principalmente os preços dos serviços básicos (83% dos ouvidos), onde se inclui o transporte. Perguntados sobre o que deveria ser administrado por empresas privadas, os entrevistados responderam que apenas a fabricação de automóveis e o serviço de telefonia celular. Vale dizer que em ambos os casos os percentuais ficaram nas bordas do empate: 57% e 54%, respectivamente. Cabe observar que nem Alberto Almeida nem a FGV são o que se se pode falar de estatistas. Antes, o contrário.
É o mesmo fenômeno que vem mudando a cor da América Latina, em sucessivas vitórias dos candidatos da esquerda, a mais recente com Correa, no Equador. Diria mesmo que é um fenômeno que se expressa até na América do Norte, com a vitória para a Câmara e o Senado dos esmaecidos democratas. Ainda que não se possa dizer um processo revolucionário – longe disto - é um processo de rejeição à hegemonia neoliberal.
O espaço à esquerda, neste quadro, foi preenchido pelo Lula do segundo turno, na medida em que não foi preenchido por nós, a esquerda, no primeiro. Nosso discurso perdeu-se na onda moralista do primeiro turno e permitiu que se procedesse a um plebiscito sobre a necessidade ou não de ter um presidente menos escrachado, do que o Lula. Fomos espremidos, porque para apenas tirar o Lula em nome da moralidade Alckmin era mais viável.
Sem desconhecer as limitações de uma campanha popular, cada vez mais desigual em relação aos orçamentos milionários das campanhas da direita, a verdade é que a massa virando à esquerda poderia nos ter visto como uma opção no primeiro turno, se tivéssemos saído da armadilha que o PSDB armou para Lula e que nos pegou também.
A massa virou à esquerda e resgatou o PT para cumprir o papel de barrar a direita. Até porque nós não fizemos a tarefa pré-eleitoral do dia-a-dia: chamar o debate para a crítica radical, aquela que denuncia a falta de ética, mas denuncia principalmente a essência do regime – a exploração do trabalhador, a apropriação individual do trabalho coletivo, a desigualdade relativamente crescente e todas as outras mazelas, da violência à discriminação, decorrentes da dominação capitalista. Principalmente não temos demonstrado como isto avança entre nós e como o PT e Lula servem a este projeto de dominação e exploração.
A eleição de figuras bizarras como Clodovil, de figuras emblemáticas da direita como Collor e Maluf. são números que nos mentem sobre a conjuntura, mas mentem pouco. Os números das eleições são em sua grande maioria verdadeiros.
Mesmo no plano local e proporcional, derrotas como a de Artur Virgílio no Amazonas, (do candidato) de ACM na Bahia, de Jarbas Vasconcellos em Pernambuco, de Roseane Sarney, Denise Frossard, Almir Gabriel no Pará, Dias no Paraná e outras são um sinal desta virada.
O que nos engana, especialmente, não é a pequena mentira que nos pregam alguns números. Mas o fato dos maiores números se dirigirem a Lula e seus candidatos – atentem, a maioria eleitos no segundo turno. Estes números nos enganam porque para nós Lula mentiu de novo; ele não é a esquerda. As bandeiras que defendeu no segundo turno foram mais um golpe de marketing.
Isto sabemos nós. O que ficou explícito para os eleitores e não foi desmentido, o que apareceu como disputa no segundo turno foi um Lula na esquerda e um Alckmin na direita.
Foi isto que fez diferença e a grande diferença. Porque foi isto que foi julgado pelos eleitores.
E os votos nulos, brancos e a abstenção ?
Talvez uma pesquisa esteja faltando, nas análises da ciência política brasileira sobre as eleições de 2006. Uma pesquisa que responda à pergunta: porque tantos não foram votar e outros votaram branco e nulo ? Foram 24% de não comparecimento, 4,71% de nulos e 1,32 de brancos. A soma representa quase 1/3 dos eleitores brasileiros que rejeitaram ou o processo ou os candidatos.
Em que medida quando dizíamos a frase de fácil compreensão para a massa nem Lula nem Alckmin estávamos repetindo o que um grande segmento de eleitores já dizia entre si ?
Será este dado adicional, menos revelado e estudado, um ponto a mais para se acrescer à avaliação desta conjuntura ?
Neste caso, o que seria esta crítica radical senão mais um sinal de que os trabalhadores e desempregados, os gravemente atingidos e desencantados resolveram dar a sua opinião ?
A avaliação de que a sociedade brasileira foi para a esquerda coloca sobre a verdadeira esquerda a tarefa de se reorganizar rapidamente. Não ficar chorando suas perdas, porque no mais amplo e profundo do cenário atual está uma vitória, que precisa ser trabalhada.
Neste aspecto, que também significa um dado de conjuntura, continuamos com as mesmas mazelas: uma disposição enorme para o enfrentamento e pouca para o entendimento, um desapreço incompreensível para com a teoria e os valores do socialismo e um pouco caso irresponsável pela necessidade de um ferramenta política que reúna forças para enfrentar quem se deve enfrentar de fato.
Uma frente de esquerda, construída para a eleição, mas anunciada como acima e para além do eleitoral, parece ter sido esquecida. Seja durante o próprio processo, seja posteriori ao processo, quando nenhuma notícia se tem dela, desde o dia 1º de outubro.
Unidade, crítica marxista, agenda de luta comum – esta é a pauta da reorganização da esquerda. Do orgânico para o político, passando pelo teórico.
Do contrário, a conjuntura favorável se dissipa, ao invés de se ampliar
Porque o ano que vem não é um ano de marketing – no sentido vulgar que se dá à palavra: ilusão passageira. Lula mudará o seu discurso para dar andamento às reformas que a grande burguesia necessita e espera dele. Nós precisaremos ter forças para denunciar à sociedade que Lula voltou para a direita. E pior: na prática.
Ou teremos condições de ocupar o espaço à esquerda, ou este espaço se fechará de novo sob a manipulação dos meios de comunicação de massas, do PT, de Lula e de sua aliança com o PMDB.
Muita adversidade unida para nos darmos ao luxo de continuar divididos e inertes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário