
“O Petróleo é nosso” e a privatização da Vale do Rio Doce
I - Origens: Do petróleo é nosso
Em 1946, o General Horta Barbosa, com as vivências das lutas que se travavam na América Latina contra o Cartel do Petróleo, organizou, com o apoio de outros militares, a Campanha em Defesa da Nacionalização do Petróleo. O Cartel do Petróleo era composto pela Standard Oil, Shell, Atlantic e Texaco, esmagadoras das empresas estatais retiradoras de Petróleo, arrebatava as principais fontes de ganho, especialmente a distribuição.
A campanha nacionalista começou a se movimentar tendo como centro o monopólio estatal do petróleo. A partir disso, buscou o apoio de entidades dos trabalhadores e dos estudantes, alguns empresários, intelectuais, servidores públicos e militares que reivindicavam a soberania nacional e a independência econômica. No começo, a campanha ficava restrita a reuniões fechadas que aconteciam principalmente no Clube Militar. Eram reuniões de esclarecimento, mas eram mornas, ficando restritas às quatro paredes do auditório onde aconteciam.
Em 1947, no IX Congresso Nacional dos Estudantes, é aprovada a adesão da UNE à campanha. É nesse momento que surge o grito “O Petróleo é nosso”. A campanha, então, ganha as ruas através da juventude universitária e secundarista, vai aos sindicatos, realiza comícios e mobilizações de organizações de bairros. O enfrentamento com a brutal repressão do aparelho policial do governo Dutra, chefiado por Cecil Boré, leva a prisões e até mortes de diversos ativistas.
A campanha “O Petróleo é nosso” passou a ter uma estrutura de militantes voltada para as tarefas de difusão e organização dos eventos. Torres de madeira simbolizando as torres de petróleo foram fincadas nas praças públicas com bandeiras brasileiras e com placas que diziam “O Petróleo é nosso”. A campanha atravessou o governo Dutra sem parar, enfrentando a violência da repressão policial.
Em 1950, Getúlio Vargas é eleito presidente da República. A campanha aumenta sua intensidade e é criado o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional. No Congresso Nacional é apresentado o projeto de lei “reservando ao Brasil o monopólio da pesquisa e lavra das jazidas de petróleo”. O Centro de Estudos emenda ampliando o projeto para “o monopólio nacional da refinação do petróleo brasileiro e estrangeiro bem como o transporte marítimo desse petróleo e derivados, fixando também o monopólio nacional do transporte por gasoduto e oleodutos e a criação da Petróleo Brasileira S/A, Petrobrás”.
O projeto sem essa ampliação era inepto. O país ficaria a mercê do Cartel do Petróleo, e, ao invés de “O Petróleo é nosso”, seria “Esso nosso”.
O embate foi duro diante do vacilo do governo. As tarefas de difusão e organização se multiplicaram nos meios estudantis, dos trabalhadores e populares. Nas ruas, comícios relâmpagos e eventos pressionavam pela aprovação do projeto do Centro de Estudos. O projeto é aprovado. Nesse momento, havia a preparação de uma festa nacional. O projeto, então, vai à sanção presidencial e o Centro de Estudos toma conhecimento de que o governo de Getúlio estava vacilante. O deputado nacionalista Nestor Duarte, em pronunciamento na câmara Federal denuncia a vacilação do governo.
Em seguida, o Centro de Estudos convoca de imediato o Congresso Nacionalista em defesa da Aprovação da Lei. Não posso precisar a data, mas em setembro de 1953 militantes nacionalistas de todo o país se fazem representar neste Congresso, realizado no Palácio Tiradentes. UNE, UBES e diversos sindicatos participam do evento. A deliberação final do Congresso é realizada no Largo da Carioca, e é exigido que o Presidente sancione a lei sem vetos. A proposta foi defendida pela minha esposa Lygia na Tribuna do Congresso. No começo de outubro de 1953, o presidente do Centro, em sessão plenária, anunciou que a Lei 2004/53, que criava a Petrobrás, estava sancionada regada pelo sangue e suor dos militantes.
II – A PRIVATIZAÇÃO DA VALE
Em 1939, o Brasil criou o Código de Minas, que transformou o subsolo em propriedade do Estado, e sua exploração pela iniciativa só poderia ocorrer através de concessão. Já em 1942, O governo Vargas encampou as propriedades da Itabira Iron, inaugurando a Vale do Rio Doce.
As jazidas brasileiras de ferro, em Minas Gerais, foram descobertas por ingleses que criaram a empresa Itabira Iron, pretendendo mantê-las como reserva de minério que seria exportado in natura assim que os preços fossem convenientes. Em 1939, face a 2ª. Guerra com a Alemanha, a situação se modificou, o que permitiu a Getúlio, em troca do apoio aos aliados, fazer a encampação da Itabira Iron. Em seguida, em 1942, a Companhia Vale do Rio Doce foi inaugurada. Essa barganha, contudo, impôs ao governo o acesso exclusivo às exportações do minério de ferro brasileiro, rapidamente ampliadas por meio da ampliação da estrada de ferro e do porto de Vitória. Aproveitando a conjuntura, foi implantada uma indústria mineração e siderurgia sob o controle do Estado Brasileiro, destacando-se a CSN de Volta Redonda. A Companhia Vale do Rio Doce se desenvolveu e atingiu o marco internacional na indústria de minérios, sendo possuidora do maior patrimônio de minérios de ferro do mundo, com a maior mina a céu aberto do mundo, Carajás.
Em 1997, com 55 anos a serviço do povo brasileiro, avaliada em 92 bilhões de reais, ela foi vendida pelo governo pelo governo FHC por 3,3 bilhões de reais. Segundo noticiário da época, a Vale tinha em caixa 700 milhões de reais, que foram entregues a Benjamin Steinbruc.
A campanha contra a privatização da Vale teve movimentações de grupos nacionalistas, algumas manifestações de rua fracionadas por posições contraditórias de sindicatos que se movimentavam na área metalúrgica, vide o sindicato dos engenheiros da CSN. A campanha não contou com o apoio maciço da UNE e de outras entidades, o mesmo ocorrendo com alguns setores dos partidos políticos envolvidos. Apostaram no enfrentamento formal, buscando no judiciário a solução para o assalto ao patrimônio público. Ainda hoje perambulam pelo judiciário ações contra esta privatização.
Na esteira dessa posição, veio o total desmantelamento do Estado com a venda de empresas estatais de referência internacional, como a Embratel, a Embraer e a CSN.
Participei ativamente da campanha “O Petróleo é nosso” . Vi a prisão, os espancamentos e mortes de companheiros da UNE, da UBES, de sindicatos, das organizações de bairro que apostavam no enfrentamento político direto na defesa da independência contra o cartel do petróleo e a repressão. Foi um outro tempo.
Com mais de 70 anos, participei dos eventos na luta contra as privatizações e vendas a preço de banana do patrimônio do povo, e confesso que não senti o povo envolvido na questão.
A Petrobrás está aí, não foi “privatizada” face suas origens, mas está corroída pela manobra do capital. Não tem mais o importante papel de alavancar a nossa independência econômica. Está afastada dos interesses do povo.
Não podemos deixar que empresas importantes sejam utilizadas em benefício de interesses privados. Nesse sentido, devemos continuar a luta que sempre fizemos, e exigir que a exploração destes setores estratégicos que compõem o patrimônio do país, seja revertida em benefício do povo. Esta é a importância de seguirmos questionando as privatizações que já aconteceram e as que vêm sendo implementadas, inclusive de maneira sutil e sem leilões como nas universidades, nos hospitais, etc. Pois, o petróleo é nosso, a Vale é nossa, as universidades são nossas...
É o que vejo hoje, com 83 anos e mais de 60 anos de lutas. São duas campanhas em épocas diferentes.
Manoel Martins é militante do PSOL